Salve, Kamarada!
A seleção desta semana foca no tabuleiro da “Guerra às Drogas”, que ganha contornos de conflito internacional com a nova ofensiva de Donald Trump sobre facções brasileiras. Além disso, também trago como os recursos confiscados do tráfico podem virar saneamento básico nas periferias. Para fechar, indico uma leitura essencial sobre como um século de desinformação midiática construiu a lógica proibicionista que nos aprisiona até hoje.
Bora atualizar os fatos?
EUA devem anunciar CV e PCC como organizações terroristas nos próximos dias
Dando continuidade ao alerta que fizemos na curadoria que saiu no dia 08 de dezembro do ano passado, sobre a Ordem Executiva 14.157, o cenário de uma “guerra às drogas” com roupagem bélica acaba de ganhar um novo e preocupante capítulo. Conforme apurado pela colunista Mariana Sanches, do UOL, o governo de Donald Trump deve anunciar nos próximos dias a inclusão das facções brasileiras Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) na lista de organizações terroristas estrangeiras dos EUA.
Se em dezembro foi apontado que o mandato de Trump passaria a tratar cartéis como terroristas para prever intervenções além-fronteiras, a notícia trazida por Sanches confirma que o Brasil está diretamente na mira dessa estratégia.
Podemos acompanhar na matéria que, de um lado, o governo Lula vê a medida com desconfiança, temendo que o rótulo de “terrorismo” seja um aval para os EUA realizarem operações militares ou investigativas no Brasil sem pedir licença, ferindo nossa soberania. Do outro, Eduardo Bolsonaro atua como o grande articulador dessa agenda em Washington. Para ele e seus aliados, trazer a força de Trump para o jogo é uma forma de validar sua política de “tolerância zero” e encurralar as estratégias de segurança do atual governo, usando as estratégias dos EUA para ditar as regras do combate ao crime por aqui.
Como reforçado anteriormente, não é de hoje que os EUA utilizam o discurso da “Guerra às Drogas” como instrumento de poder e dominação econômica. O que vemos agora é a consolidação de um modus operandi que ignora a saúde pública para priorizar estratégias de segurança que ferem soberanias.
Para aprofundar a compreensão sobre os riscos dessa doutrina, vale revisitar o artigo do advogado André Luiz de Carvalho Matheus, no Portal Conjur, que detalha quão problemática é essa transição do narcotráfico para o conceito de terrorismo sob a ótica de Washington.
Comissão aprova uso de dinheiro apreendido do tráfico para obras de saneamento básico
A Comissão de Desenvolvimento Urbano da Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 3770/25, que autoriza o uso de recursos do Fundo Nacional Antidrogas (Funad) para o financiamento de obras de saneamento básico em áreas de vulnerabilidade social.
Segundo a notícia veiculada pelo portal oficial da Câmara dos Deputados, a proposta, que ainda precisa ser aprovada na Câmara, permite que o dinheiro e os bens apreendidos do tráfico de drogas (como imóveis, veículos e valores em espécie) sejam reinvestidos diretamente na infraestrutura de comunidades vulnerabilizadas.
Na matéria, o relator, deputado Saulo Pedroso (PSD-SP), defende que a medida ataca a raiz do problema: “A melhoria das condições urbanas e sanitárias contribui para a redução de contextos de exclusão e marginalização, frequentemente associados ao aumento da exposição a situações de violência, criminalidade e uso problemático de drogas”.
Se o patrimônio do crime pode virar cano de esgoto e água encanada, fica o questionamento inevitável: por que insistir apenas no modelo de apreensão e conflito? Aproveito a deixa para jogar uma sementinha de reflexão: com a regulamentação do comércio de maconha, os impostos e tributos gerados por esse varejo poderiam ser revertidos de forma contínua e previsível em benefícios sociais.
Um século de fake news: o papel da mídia na proibição da cannabis
Para entender as bases do proibicionismo, a leitura da coluna de Luna Vargas no Brasil de Fato, “Um século de fake news: o papel da mídia na proibição da cannabis”, é essencial. A autora demonstra como a comunicação em massa foi o braço propagandista fundamental para construir um pânico moral sem base científica, utilizando narrativas fabricadas para criminalizar corpos e territórios sob o pretexto da saúde pública.
Entender essa engrenagem midiática é compreender como a “Guerra às Drogas” se sustenta até hoje: trocando fatos históricos por sensacionalismo bélico para nos convencer de que a violência é a única resposta possível.
Esta edição da Kuradoria de Notícias tem um peso diferente para mim, pois marca minha despedida deste espaço. Após um período acompanhando de perto como a mídia noticia sobre as engrenagens da política de drogas e compartilhando análises com vocês, sigo agora para novos desafios e projetos pessoais, encerrando minha colaboração com a Kamah.
Foi um privilégio construir esse olhar crítico e trocar ideias com a komunidade, da qual eu já era parte até mesmo antes de integrar o núcleo de comunicação da Kamah. Agradeço a confiança e a parceria da equipe kamahlesca e de quem esteve do outro lado da tela fortalecendo o debate.
A luta por informação de qualidade e por uma política de drogas mais justa continua, e espero que as reflexões plantadas aqui sigam germinando.
Um forte abraço e até que nossos caminhos se cruzem novamente :)
Drika Coelho

