Salve, kamarada!
A maconha segue em pauta, com as mesmas contradições que já estamos habituados – um assunto que, não raramente, está entremeado pela morosidade e interesses escusos nas decisões políticas e, ao mesmo tempo, surge nas editorias com projeções sedutoras e promissoras no que diz respeito ao mercado.
PL 399 e o “jogo de empurra”
Entre a promessa bilionária e o ‘jogo de empurra’ ideológico, o debate da maconha continua em alta, provando que o caminho da regulamentação está longe de ser linear. O Sechat noticiou que a Câmara dos Deputados retomou a pauta do Projeto de Lei (PL) 399/2015 e colocou para votação o Recurso (REC) 29 de 2021, uma decisão crucial que definirá o seu futuro.
No entanto, marcada para o dia 11 de novembro, a votação não ocorreu, conforme veiculado pela Gazeta do Povo. A matéria chama a atenção por revelar possíveis estratégias políticas para frear o avanço da discussão proposta pelo projeto em questão, como utilizar o chamado mecanismo regimental, que através de pedido de Recurso, exige votação em Plenário, sendo a manobra uma tática política de paralisação.
Para quem ainda não tomou conhecimento do assunto, o PL 399, de autoria do ex-deputado, agora atual governador, Fábio Mitidieri (PSD), tem como objetivo legalizar o cultivo de cannabis no Brasil para fins medicinais e industriais.
A oposição, ao se mobilizar para aprovar o recurso que prevê a necessidade de votação de todos os 513 deputados, está essencialmente desconsiderando a aprovação técnica, já realizada, e forçando o projeto a um Plenário onde a pauta tem maior chance de ser barrada por questões ideológicas e morais, e não por razões econômicas ou de saúde pública.
Entre o lucro e a proibição
Não é só aqui que vemos muitas disparidades. Os EUA, precursores do discurso e práticas proibitivas que influenciam decisões globalmente desde os anos 70, quando declararam as drogas como inimigo número um, e que também, paradoxalmente, emplaca notícias de exemplos de avanços regulatórios e no campo dos negócios, também dá os seus passos para trás, conforme noticiado pelo Sechat.
A notícia informa que o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump sancionou uma lei que restaura a proibição federal para a maioria dos produtos derivados do cânhamo, um setor legalizado desde 2018.
Essa medida estabelece um limite rígido de 0,4 mg de THC total por embalagem, independentemente do tipo de produto. Na prática, isso torna ilegais flores com altas concentrações de THC, produtos de CBD de amplo espectro e canabinoides sintéticos como o delta-8 THC.
Por outro lado, ainda sobre EUA e Trump, o artigo do Poder 360 analisa a posição favorável do atual presidente em relação ao canabidiol (CBD) e como isso impactou o mercado, ao mesmo tempo em que expõe as contradições morais e políticas da política antidrogas norte-americana.
A matéria aponta que a Cannabis que interessa a Trumpé a que não afronta a “moral e os bons costumes”, por não ser psicoativa, e que pode gerar bilhões de dólares para o mercado, especialmente a indústria farmacêutica.
Hipocrisia que chama, né? Entre muitas coisas, não podemos esquecer que o THC também tem propriedades terapêuticas e, também, que o que dá pano pra manga segue sendo o racismo e o classicismo.
Embrapa na Expo Cannabis Brasil
Falando das projeções promissoras, o Globo Rural destacou a realização da Expo Cannabis Brasil 2025, que acontece nos dias 14,15 e 16 de novembro em São Paulo, como um marco no amadurecimento do mercado de cannabis no país, ultrapassando o foco exclusivo no uso medicinal e projetando um grande potencial econômico, apesar das contradições que regem o assunto e decisões.
Falando em cifras, a expectativa da feira é de movimentar até R$6 milhões em negócios durante os três dias. O evento antecipa o impacto da regulamentação do cultivo no Brasil, cuja previsão de prazo limite é março de 2026, fato também noticiado pelo mesmo veículo, confira aqui.
Outro destaque dado pela editoria Agro do Estadão, é sobre a estreia da participação da Embrapa na feira, para apresentar o projeto HempTech Brasil, uma uma colaboração entre a Embrapa, o Instituto Ficus e a The Green Hub, que visa estruturar a cadeia do cânhamo industrial no país, como uma plataforma de articulação estratégica para regulamentação, mapeamento de oportunidades e estímulo à inovação no setor.
Além da Cannabis: Crise Climática e Política de Drogas
E, para encerrar, é fundamental lembrar que o debate das drogas tem raízes muito mais profundas.Como nem tudo são flores, ou só sobre elas, neste campo das drogas, vamos falar sobre a matéria veiculada no Alma Preta Jornalismo, que destaca o levantamento intitulado “Floresta em Pó”, lançado pela Iniciativa Negra e parceiros, que traça toda cadeia envolvida na produção e distribuição de coca e cocaína e alerta para a ligação direta e muitas vezes ignorada entre a política global de proibição das drogas e o agravamento da crise climática e da violência na Amazônia.
Vale muito a pena para expandir o conhecimento e trabalhar o pensamento crítico, ler não só a matéria como também o relatório, ambos disponíveis aqui.
As notícias selecionadas desta semana reforçam que, entre a sede por lucros e a hipocrisia política, o que se perde é a oportunidade de construir um futuro mais justo. O debate da maconha, e de todas as drogas, é indissociável das pautas de racismo estrutural e crise climática. Não dá para ficar neutro. Sejamos a voz que exige regulamentação consciente, reparadora e inclusiva.
Continue lendo, continue questionando. Até a próxima sessão!

