Salve, komunidade!
Nos últimos dias, várias notícias mostraram o que muita gente que acompanha o universo da cannabis no Brasil já sabe: as coisas estão mudando, mas ainda tem muito ruído, contradição e falta de coerência na forma como se trata a planta, seja como medicina, economia, cultura ou política pública.
Mural em homenagem ao Padre Ticão: presença simbólica, ausência verde
Na zona leste de São Paulo, um mural gigante foi inaugurado no novo CEU (Centro Educacional Unificado) em homenagem ao Padre Ticão, figura histórica na luta por moradia digna e, também, pelo uso medicinal da maconha. A obra tem 420m² (sim, 420!) e traz elementos que representavam sua luta: o povo, a periferia e a fé. Mas tem um detalhe importante: mesmo sendo um dos maiores defensores da planta no Brasil, a mesma não aparece na arte. Em matéria do portal Sechat, Rafael Roque, o artista que realizou a obra, revela que houve limitações. E é aí que está a crítica ao sistema: como prestar homenagem a alguém sem mencionar o tema que ele mais defendeu nos últimos anos de vida? Infelizmente, a cannabis ainda é tratada como algo que não pode estar num mural público, mesmo quando faz parte da história.
Economia circular no Nordeste e a cannabis nesta conversa
Enquanto isso, em Recife, rolou o II Fórum Nordeste de Economia Circular, noticiado pela Folha de Pernambuco. Um evento importante, com gente do Brasil e de fora, discutindo produção, consumo e descarte sustentáveis.
Entremeando toda discussão sobre inovação e futuro verde, a cannabis apareceu como possibilidade, especialmente no contexto do cânhamo industrial, que pode ser usado desde bioconstrução até papel, tecido, plástico biodegradável e muito mais.
Só que a planta ainda é tratada com certo cuidado, como se falar abertamente sobre ela fosse arriscado. A pergunta que fica é: se estamos falando de uma nova economia baseada em circularidade e sustentabilidade, por que não integrar de vez uma planta que pode gerar renda, emprego e reduzir impacto ambiental?
Anvisa proíbe produtos de cannabis sem registro
Do lado regulatório, O Globo anunciou que a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) proibiu oito produtos de cannabis que estavam sendo vendidos sem autorização, tanto como produto quanto empresa.
Sim, controle é necessário, mas esse tipo de ação também escancara o vácuo em que o Brasil vive hoje: tem demanda, tem gente precisando, tem mercado, mas o sistema regulatório ainda engatinha. Como consequência, tem muita gente comprando produto irregular porque não tem acesso fácil ao que é legalizado. E quando isso acontece, quem sofre é sempre quem mais precisa: pacientes, famílias e profissionais da saúde.
Operação fecha associação que atendia 9 mil pacientes
Agora, uma notícia que saiu em diversos veículos brasileiros e está circulando bastante na rede ativista, que escancarou o abismo entre regulação e realidade: a Polícia Civil de São Paulo desmontou uma associação que opera com cultivo de cannabis em Lins. A Santa Gaia fornecia remédios para mais de 9 mil pacientes, e foi acusada de funcionar sem autorização da Anvisa.
Resultado? Remédios apreendidos, pacientes sem acesso e uma dúvida no ar: como essas associações devem atuar se o Estado não cria uma via clara e segura para elas operarem? Esse tipo de repressão mostra como, na prática, as pessoas estão sendo punidas por tentar fazer o que o Estado ainda não resolveu organizar.
Confira mais detalhes na matéria que saiu na Revista Fórum, que ressalta o depoimento do deputado estadual Eduardo Suplicy (PT-SP), grande apoiador da causa, que denunciou o ocorrido em suas redes sociais.
Estudo aponta fator genético na dependência de cannabis
Também saiu uma pesquisa recente, noticiada na seção Viva Bem, do UOL, mostrando que a dependência em cannabis pode ter ligação com fatores genéticos. Ou seja, não é só uma questão de “força de vontade” ou frequência de uso – algumas pessoas são mais suscetíveis biologicamente.
Entretanto, uma ressalva importante é trazida na matéria, os fatores biopsicossociais também são marcadores relevantes nessa relação. Informação é fundamental para reduzir danos e criar políticas públicas mais humanas. E, vale o alerta: muitas vezes, esse tipo de dado é usado fora de contexto, reforçando o medo, o estigma e a visão de “droga perigosa”. A ciência deve servir para orientar o debate, não para justificar repressão.
Festival internacional de cinema canábico no Rio
Por outro lado, tem boas notícias. Em outubro, o Rio de Janeiro vai sediar o primeiro Festival Internacional de Cinema Canábico no Brasil. Uma iniciativa, da qual a Kamah é parceira, que reúne arte, cultura e ativismo e coloca a cannabis no centro da conversa de forma leve, crítica e informativa.
O evento mostra que existe espaço para normalizar o tema, trazer outros olhares, sair do estigma. Porque a cannabis não é só um assunto de saúde ou polícia, é também um tema cultural, social, econômico. E o Brasil precisa aprender a falar sobre isso com mais maturidade. Confira a programação completa e mais informações acessando aqui.
E o Congresso? Segue falando em “combate às drogas”
Em meio a tudo isso, saiu no site oficial da Câmara dos Deputados, que a Comissão de Direitos Humanos da casa legislativa marcou uma audiência pública para discutir a política de “combate às drogas”. O foco? A prevenção, o atendimento a usuários e a repressão ao tráfico.
O nome da audiência já diz muito. Ainda se fala em “combate”, em vez de política de cuidado, de regulação, de redução de danos. Enquanto o resto do mundo discute legalização, regulação e pesquisa, o Brasil ainda bate na mesma tecla de criminalização, especialmente quando isso afeta corpos e territórios periféricos.
O panorama da cannabis no Brasil hoje é esse: cheio de avanços pontuais, mas ainda travado por contradições enormes. Isso revela que o Brasil ainda precisa decidir se vai tratar o tema como um problema a ser combatido ou como uma realidade a ser integrada, com responsabilidade, ciência, justiça social e inclusão. A segunda opção é bem melhor, concordam kamahradas?
Enquanto essa escolha não é feita de forma clara e coletiva, quem sofre é quem mais precisa: pacientes, ativistas, profissionais de saúde, pesquisadores e comunidades que poderiam se beneficiar da planta, mas seguem enfrentando muros em vez de pontes. Vamos cocriar um amanhã no sentido da transformação desse cenário.
Até a próxima seção!
