Salve, Kamahradas!
No mesmo momento em que a censura da Meta prejudica diversas iniciativas, como associações de pacientes, jornalistas, ativistas e empreendedores, e as barreiras burocráticas e legais continuam a frear o avanço de pesquisas científicas sobre a maconha, dois eventos recentes sobre o tráfico de drogas trouxeram a discussão para o centro das atenções, exigindo uma abordagem mais nuançada, menos enviesada e moralista.
‘Foi mal, tava doidão!’
Em matéria veiculada pela Agência Pública, escrita por Matias Maxx, nos informa que, nos dias 17 e 18 de outubro, a Meta suspendeu cerca de cinquenta perfis brasileiros relacionados à cannabis no Instagram. Entre comunicar a importância e relatar a frustração por perder a @, a reportagem ressalta que o ministro Paulo Teixeira, do Desenvolvimento Agrário, pressionou publicamente a Meta após a suspensão de perfis de cannabis no Instagram, o que resultou na reativação de mais de 20 contas.
O texto nos faz refletir, puxando o assunto de forma inusitada ao ligar um meme com o comportamento da plataforma, sobre a problemática de não apresentar uma justificativa que faça sentido por diversos fatores, por exemplo, conforme levantado pelo jornalista, o questionamento de como perfis que são obviamente inadequados, como os que propagam discurso de ódio, continuam ativos e operantes.
Vale lembrar, como bem pontuou a matéria logo de saída, que as manifestações públicas em prol da legalização da maconha são constitucionais, reconhecidas legalmente a partir de duas decisões judiciais do STF, a ADPF 187 e a ADI 427, ambas de 2011.
Como podemos apresentar dados científicos se as pesquisas são dificultadas?
Agora, vamos entrar no assunto: obstáculos nas pesquisas com cannabis no país.
O tema foi pauta de matéria veiculada no Jornal da Unesp, que relata que pesquisadores do grupo de trabalho instituído pela Embrapa listaram 481 dificuldades enfrentadas pelos pesquisadores brasileiros.
Os entraves incluem burocracia, regulamentação complexa, dependência de insumos importados e dificuldades para fortalecer a soberania tecnológica do país. Leia a matéria completa aqui.
Para refletir além do noticiado: a realidade, a mídia e a cobertura sobre o tráfico
A notícia da prisão de Melissa Said, dada pela maioria dos veículos nacionais, que informam que ela foi detida sob suspeita de tráfico na sexta-feira (24), na Bahia, escancara as nuances necessárias para a gente questionar diante do ocorrido: o comportamento da mídia ao trazer o fato à tona e a ineficácia do combate ao tráfico por não erradicar a problemática em sua estrutura racista e classista, e ignorar a realidade de quem usa.
Diante disso, vamos direcionar para outro lado que não o da mídia tradicional de massa e recomendar a leitura do texto ‘Eu corro, tú corre, nós corremos’, do kamahrada Marcel Lyra, que oxigena nossa mente para pensar na relação entre o consumo e a necessidade de obter os produtos do narcotráfico, e que faz com que esse mercado, ainda que ilegal, seja sempre aquecido e atravesse a realidade da maioria das pessoas.
A problemática culpabilização de usuários na declaração de Lula
Da série “notícias que gostaríamos de desver”, vamos fechar a curadoria com uma que desagrada, e muito, quem é antiproibicionista, por ser um desserviço diante da importância e urgência na pauta: a governança em política de drogas.
Durante uma coletiva de imprensa em Jacarta (Indonésia), ocorrida no dia 24 de outubro, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou que os traficantes de drogas são “vítimas dos usuários”. A fala ocorreu enquanto Lula respondia a uma pergunta sobre as recentes declarações do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que defendeu ações militares letais contra supostos grupos de narcotráfico. Na ocasião, ele também destacou que o Brasil combate o tráfico com operações coordenadas pela Polícia Federal e cooperação internacional.
Diante do fato, relatado em matéria veiculada pela CNN, uma coisa é certa: ao enaltecer o projeto político de guerra às drogas, que já entendemos que serve como desculpa para violentar e vulnerabilizar a juventude preta e periférica, e ao culpabilizar e responsabilizar quem faz uso pelos efeitos colaterais do proibicionismo, o presidente errou feio, errou rude.
Além de perpetuar estereótipos, preconceitos e a marginalização de pessoas que consomem substâncias ilícitas (um grupo considerável da sociedade!), um ponto importante de atenção é que a declaração vai na contramão da real necessidade de regulamentar a demanda e a implementação de políticas públicas que sejam no campo da saúde, pautada no cuidado em liberdade, Diretrizes de Redução de Danos e não de uma segurança pública truculenta como a que temos operante em nosso país.
Me despeço expressando o desejo de trazer boas novas na semana que vem. A luta é contínua, sigamos com a mente aberta e a voz alta.
Até a próxima seção!

