Cânhamo, regulamentação e os desafios de uma economia realmente sustentável
O cânhamo, cujo plantio teve grande incentivo da coroa portuguesa nas terras do Brasil colônia, entre os séculos XVII e XVIII, volta a ser pauta em pleno século XXI. A planta movimentou a economia colonial fornecendo, principalmente, fibras para confecção de cordas e tecidos, e ressurge agora como símbolo da transição ecológica.
“Na porção portuguesa da América, no Brasil, as notícias frequentes sobre o plantio e o uso da fibra de cânhamo, em especial para as necessidades da Marinha, uso amplamente conhecido em Portugal, que do século XVIII até pelo menos 1945 editou manuais agrícolas ensinando a plantar o cânhamo e a extrair dele a melhor fibra”, Jean Marcel Carvalho França, autor do livro História da Maconha no Brasil.
Mas, entre a semente e a promessa, há um caminho que precisa ser plantado com estratégia, ética e consciência ambiental. A julgar pela experiência passada, cujo o plantio e a produção das fibras não vingaram por muito tempo no Brasil, é preciso muito conhecimento para lidar com as intempéries climáticas e muitas vezes, com a falta de apoio do governo, razões que justificam o porquê esse cultivo não prosperou no período colonial.
Com a COP30 no horizonte e a urgência climática no centro das discussões globais, o cânhamo é apresentado como promessa de um futuro verde: absorve CO₂, regenera o solo e pode substituir o plástico, o algodão e o concreto. Parece ser a planta perfeita, e talvez seja, desde que não se perca no discurso greenwashing mascarado nas vitrines da sustentabilidade.
O cânhamo na era da regulamentação
Anvisa e Ministério da Saúde estão prestes a liberar o cultivo de cânhamo no Brasil, a princípio apenas para fins medicinais. O prazo final, já prorrogado pela segunda vez, é que o marco regulatório seja definido até março de 2026.
A notícia provoca debates, desperta o interesse do agronegócio e acende o alerta: será que o país está preparado para fazer o cânhamo florescer sem repetir as ações que destroem o planeta?
Estudos de mercado prospectam um crescimento econômico que alcança grandes cifras na economia, mais precisamente R$ 5,76 bilhões até 2030, de acordo com dados da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária).
Para Ângela Aboim, coordenadora geral da FACT (Federação das Associações de Cannabis Terapêutica), é preciso incluir com solidez a luta associativa nesse processo regulatório, afinal, as associações foram um setor de extrema relevância dentro desse mercado.
“As associações, que vem sustentando o acesso ao tratamento com Cannabis e fomentando a pesquisa nos últimos anos, estão, aparentemente, fora do jogo”, aponta.
Para a advogada e pesquisadora do tema, Isa Tami, “é essencial termos um texto regulatório inclusivo, que ofereça incentivos fiscais, capacitação técnica e fornecimento de sementes para pequenos agricultores e comunidades indígenas. Um exemplo, é o programa Hemp Guarani, no Paraguai, que visa facilitar o cultivo e a produção do cânhamo por agricultores familiares e comunidades indígenas. O modelo permite até dois hectares por família, oferece sementes gratuitas, assistência técnica e garante que a produção seja adquirida pela indústria local. Um ciclo virtuoso que distribui renda e fortalece a economia local.Ainda, é necessário estabelecer regras de concorrência e limites de posse para os grandes players do mercado”.
A advogada defende também a criação de centros públicos ou semipúblicos de processamento, com gestão compartilhada e acesso coletivo aos pequenos produtores. “Esses centros, localizados estrategicamente em pólos agrícolas e financiados parcialmente pelo Estado, permitiriam que o valor agregado da matéria-prima fosse distribuído, mesmo para quem não tem recursos para investir em maquinário milionário”, esclarece.
Do hype às possibilidades reais
O potencial do cânhamo é inegavelmente diverso: fibras têxteis, papel, bioplásticos, cosméticos, combustível, suplementos e alimentos ricos em proteína e ômega 3. A planta pode ser aproveitada por inteiro e seu cultivo ainda devolve vida ao solo. Mas, não é a planta que salva o planeta e sim, seu modo de produção.
“Tudo o que é feito de plástico pode ser feito de cânhamo” , essa frase já virou slogan entre os entusiastas da planta. No entanto, o impacto ambiental não depende do material em si, mas de toda a cadeia produtiva, ou seja: não basta plantar cânhamo, é preciso garantir que todo o processo (do cultivo ao produto final) opere de modo ambientalmente, socialmente e economicamente responsável.
Se o cânhamo for cultivado nos moldes da exploração da mão de obra, concentração de terra e meios de produção, deixa de ser solução e vira mais uma marca de greenwashing. É preciso chamar atenção para a urgência de se criar políticas públicas, para pesquisa, financiamento, inovação e formação profissional, para que o Brasil possa entrar no cenário global do cânhamo de forma estratégica e inovadora.
O desafio brasileiro
Diversos países já têm um mercado consolidado de produtos derivados da planta em diferentes categorias. Apesar do potencial climático e agrícola favorável, o Brasil ainda não construiu essa cadeia produtiva, nem tão pouco uma regulação clara para o cultivo industrial. Isso o mantém atrás na corrida global do cânhamo.
Se a ideia é desenvolver o potencial competitivo do país em até dez anos, conforme apresenta o relatório feito pela Embrapa e pelo Instituto Ficus, é fundamental definir políticas públicas para que o cânhamo não se torne mais uma commodity controlada por grandes grupos.
“A Embrapa entende que o cânhamo poderá desempenhar papel estratégico na transição para uma indústria verde e de base biológica no Brasil, conciliando inovação tecnológica, conservação ambiental e inclusão social, pilares que estão no centro das políticas públicas de ciência e tecnologia agropecuária do país”, detalha Daniela Bittencourt.
Um futuro verde inclusivo
O cânhamo pode contribuir diretamente com os alguns ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável), estratégia elaborada pela ONU em 2015 para conter e minimizar os problemas sociais e ambientais no mundo.
As sementes de cânhamos, por exemplo, são importantes suplementos que ajudam no combate à fome. As plantas regeneram o solo, sequestram carbono, portanto, atuam para o controle das mudanças climáticas. Para além de plantar é preciso planejar.
O futuro do cânhamo depende de uma escolha simples: queremos uma planta que floresce sustentável nas agroflorestas ou nas vitrines do greenwashing?
“Esse tipo de cultivo na agricultura familiar, feito com técnicas sustentáveis e agroecológicas, seria muito bom pro mercado, pra sociedade e pro meio ambiente. Inclusive para viabilizar a introdução de florestas produtivas, que são agroflorestas biodiversas produzindo alimento, madeira, fibras, medicinas e que tem todos os benefícios ecológicos que uma floresta nativa proporciona: infiltração de água, sequestro de carbono, alimentação de fauna nativa, aumento de polinizadores e diminuição da temperatura”, explica Lucas Berlinir Krasucki, consultor em sistemas agroflorestais.
Conforme sinaliza Isa Tami, “para que o cânhamo não se torne mais uma commodity agrícola é preciso garantir que sua sustentabilidade seja comprovada, mensurável e auditável, desde o cultivo até o produto final, e não apenas um discurso de marketing verde”. Somada a todas essas ideias, é importante lembrar que é mandatório para que a indústria não reproduza a mesma lógica de exclusão, garantir a inclusão de iniciativas de reparação histórica, oferecendo oportunidades de emprego, participação e acesso ao mercado para as pessoas e comunidades mais atingidas pela repressão e criminalização decorrentes da guerra às drogas.
*Greenwashing é uma prática em que empresas ou instituições fingem ser sustentáveis para melhorar sua imagem, sem adotar de fato ações ambientais consistentes. Em outras palavras, é uma forma de “maquiagem verde”: o discurso e o marketing destacam responsabilidade ecológica, mas na prática há pouco ou nenhum compromisso real com o meio ambiente.

