As nuances que envolvem os cuidados e o marketing quando chega setembro.
Não à toa, a cor amarela é usada para marcar o mês de setembro e fomentar o debate sobre saúde mental e prevenção ao suicídio. O amarelo remete ao sol, à claridade e ao calor, evocando esperança e vitalidade, contrapontos à escuridão e ao isolamento que muitas vezes acompanham a depressão e os pensamentos suicidas.
Mas será que de fato esse debate ganha a amplitude que merece quando se fala em saúde mental e traz luz aos fatores que vêm adoecendo a população como um todo?
A origem da campanha e sua força simbólica
Segundo estimativas globais, a cada 40 segundos uma pessoa tira a própria vida por não suportar o horror de conviver com uma mente depressiva, ansiosa e desmotivada.
Em 2015, foi lançada no Brasil a Campanha Setembro Amarelo (CSA), por meio de uma parceria entre a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), o Conselho Federal de Medicina (CFM) e o Centro de Valorização da Vida (CVV).
Desde então, o que vemos a partir do segundo semestre é um gigantesco marketing em torno desse tema, em que estabelecimentos vestem amarelo e discutem a valorização da vida. O objetivo é disseminar a importância da saúde mental, uma pauta extremamente legítima e urgente, mas que precisa ser encarada sob uma ótica mais ampla e profunda. Afinal, a saúde mental atravessa o lado pessoal, pois está intimamente ligada a questões sociais e coletivas.
Curioso notar que, em 2017, o Brasil passou a liderar o ranking mundial de ansiedade e a ocupar a quinta posição em casos de depressão. Estima-se que mais de 19 milhões de brasileiros convivam com transtornos de ansiedade e 12 milhões enfrentem a depressão. Os índices de suicídio, segunda principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos, também vêm crescendo.
O que determina o adoecimento constante?
Se a campanha foi lançada em 2015, o que explica o adoecimento constante do povo brasileiro?
Cuidar da saúde mental vai muito além de controlar sintomas. Está ligado às condições de vida, ao excesso de trabalho, aos baixos salários, à pressão por produtividade, ao uso abusivo de telas e à comparação constante com padrões irreais nas redes sociais. Esse contexto exige que ampliemos os caminhos do cuidado.
Trata-se de um fator biopsicossocial. Isso significa que, para além de um corpo físico, precisamos escutar e considerar as necessidades básicas do nosso corpo “energético, pulsional”, principalmente na relação com outros corpos e com o mundo. Por isso, não há como falar em saúde mental se as relações de trabalho são precárias, se não encontramos no social o direito à diferença e se, culturalmente, antes de escutar, julgamos quem está doente.
Esse cenário provoca o afastamento das pessoas de seus trabalhos, do convívio social e do sentimento de pertencimento, criando uma sociedade, ainda que funcional, diagnosticada, medicada e amparada tecnologicamente. Uma equação capitalista que segue movimentando o sistema em função do lucro, mas depreciando mentes e corações.
Possíveis caminhos e soluções
- Investimentos na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), formada por serviços e equipamentos em saúde mental, como as Unidades Básicas de Saúde (UBS), os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e os Centros de Convivência e Cultura.
- Apostar no cuidado em liberdade, como única forma de garantir dignidade.
- Defender políticas públicas que assegurem segurança alimentar, melhores condições de trabalho, fim da escala 6×1, acesso à moradia e ao lazer.
Promover o respeito radical às diferenças, amplificando vozes nas pautas antirracistas, antiproibicionistas, antimanicomiais, anticapacitistas etc.
Setembro Amarelo agora é lei
Dez anos depois do lançamento da campanha, e em meio ao crescente número de brasileiros que enfrentam graves problemas de saúde mental, o governo instituiu oficialmente a Campanha Setembro Amarelo, em âmbito nacional, por meio da Lei nº 15.199.
Portanto, por ser lei, há abertura para a elaboração de políticas públicas de prevenção do suicídio e, consequentemente, de cuidados com a saúde mental. O debate deve acontecer no âmbito da saúde pública, amparado pelo artigo 196 da Constituição Federal, que afirma:
“A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.”
Garantir meios e condições de viver dignamente é valorizar o cuidado com a vida e com o bem-estar social.
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